São 56 anos dedicados ao Poder Judiciário.

Sentimentos ambivalentes, gratidão pela convivência, facilidade em julgar casos difíceis, lealdade, generosidade, compreensão e dotes culinários. Esses, e muitos outros atributos foram ressaltados na quarta-feira (27), quando o desembargador Carlos Augusto Lorenzetti Bueno participou de sua última sessão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo. Foram tantas as manifestações dos colegas que é impossível transcrever em poucas linhas nesse texto. Os pronunciamentos feitos no início dos trabalhos podem ser conferidos aqui; as demais manifestações compõem a íntegra da sessão durante os julgamentos pautados para o dia.

Depois de 56 anos dedicados ao Poder Judiciário – dez deles como servidor – o magistrado Carlos Bueno, como é chamado por todos, deixou suas funções judicantes, mas não se desvencilhou dos compromissos culinários que, durante muitos anos, ofereceu em forma de paeja, ou paella para alguns, para os colegas nas confraternizações de fim de ano, que unem os desembargadores das seções de Direito Criminal, Público e Privado.

Duas unanimidades marcaram a homenagem: a forma de tratamento menos formal, já que os colegas a ele se referiam como ‘você’, em substituição ao Vossa Excelência, o pedido, ou melhor, a intimação para que não abandonasse a convivência com todos. Se depender do desembargador Carlos Bueno, que disse com todas as letras que não queria se aposentar, a iguaria de origem espanhola continuará a colocar água na boca dos convidados nos almoços de fim de ano. O compromisso já foi, publicamente, assumido.

Nas palavras do presidente, desembargador Geraldo Francisco Pinheiro Franco, a homenagem inicial. “Permita-me tratá-lo de você nessa sua última sessão do OE, deste Colendo Tribunal de Justiça de São Paulo, Corte que sempre integrou com brilho invulgar. Você é um magistrado que sempre granjeou o respeito da Corte, o respeito de seus colegas, dos advogados, dos membros do Ministério Público, defensores púbicos, da sociedade mercê de seu conhecimento, sua independência e sua atuação sempre voltadas a honrar a Magistratura bandeirante… Sua integridade, honorabilidade, cultura, compromisso com a causa pública, inteira dedicação aos que buscam solução para os seus direitos. Você, meu querido, Bueno, está no apogeu, absolutamente no apogeu, de uma atividade profissional vitoriosa, intensa e fecunda e não fosse o imperativo de ordem constitucional continuaria a nos encantar com seus votos bem escritos, bem fundamentados e que orientam a melhor prestação jurisdicional, seja na Câmara Criminal seja no Colendo Órgão Especial. […] Que Deus continue iluminando seus passos, sua vida. Parabéns pelo exemplo que deixa para todos nós, e para uma geração de novos juízes e para seus amigos. Quero renovar a você meus votos de respeito, admiração, carinho e profunda amizade.”

O vice-presidente, desembargador Luis Soares de Mello, recordou 24 de setembro de 1975. “Essa longeva data marca exatamente o início da carreira brilhante daquele que hoje de nós se despede. São, portanto, nada menos do que 46 anos de excelentes serviços prestados ao Estado, aos cidadãos, aos jurisdicionados, à sociedade, enfim. Aposenta-se, compulsoriamente, logo mais, para nossa tristeza. É um dos juízes mais marcantes, mais dedicados e de profundo conteúdo humano jurisdicional que conheci em meus 42 anos de carreira. […] É daquelas pessoas que você se enternece na primeira fala, ao primeiro contato, à primeira vista, pela simpatia e generosidade que transmite a qualquer um que a ele se dirige. Bueno é amor, enfim. Tem para com a Magistratura a mesmíssima dedicação que presta aos bons amigos e familiares. Seus horários de trabalho são únicos e inusitados, já que chega ao seu gabinete todos os dias entre 6 e 6h30 da manhã, religiosamente, e sempre com a mesma energia e disposição de um menino. […] É impressionante essa sua marca de qualidade de amor à carreira e aos amigos, capacidade invulgar de encontrar a solução perfeita para todos os casos que lhe vêm as mãos tanto no Criminal como aqui no Órgão Especial e como em toda a sua vida, como brilhante magistrado. Sua serenidade e tranquilidade são tremendamente marcantes quer nos julgamentos com sua escrita fluida e de fácil leitura o que é claramente sentida por qualquer um que consulte seus julgados ou que o escute falar quer também, assim em seu próprio comportamento pessoal. […] Por tudo que deixa em nossa história e memória, receba meu afetuoso, fortíssimo e apertadíssimo abraço ainda que, infelizmente, por ora, virtual.”

“É difícil falar depois do presidente e do senhor vice-presidente com discursos tão bonitos e tocantes que exprimem a pura verdade que todos sentimos”, disse o corregedor-geral da Justiça, desembargador Ricardo Mair Anafe. “Conheci o Carlos Bueno, à época juiz, quando estava na assessoria da Vice-Presidência. […] Chegava muito cedo, trabalhava muito e conseguia liquidar todos os processos, razão de sua dedicação absolutamente ímpar. Fui ter mais contato com o nosso querido Bueno no OE e esse contato foi um aprendizado incrível. Já falei isso para ele de quanto e tão grande foram as lições que com ele aprendi. Não apenas em relação aos processos, mas por sua postura, amizade e o cavalheirismo sem igual. Pessoa ímpar e de uma observação dos processos sempre pontual. Lembro-me de um processo do desembargador Francisco Casconi e que o doutor Bueno pegou cargo a cargo e fez comentários absolutamente precisos de cargos em comissão. A paeja é fabulosa, realmente fabulosa, e tive a honra de me deliciar algumas vezes. Não sou da Seção Criminal, mas não tenho a menor dúvida que a Seção Criminal não abre mão dessa paeja anual. Não é a aposentadoria que vai fazer com que escape e gostaria de ser convidado de novo e sempre. […] Você cumpriu seu dever com honra, gloria e galhardia. São 46 anos de Magistratura e muito mais de Poder Judiciário e, se não me falha a memória, tem mais uma década aí. Seus familiares estão de parabéns, muito orgulho do Carlos Augusto, o mesmo orgulho que nós sentimos e repito aí uma expressão do desembargador Luis Soares de Mello: gratidão. Muitíssimo obrigado, mesmo. Você foi uma pessoa com a qual aprendi muito e a quem muito devo.”

Segundo o desembargador Fábio Monteiro Gouvêa, Carlos Bueno nunca teve acervo. “Ele sempre esteve tão em dia que acho que já dava os votos antes de os processos chegarem. Uma coisa absurda esse ritmo de trabalho dele, que aprendi a admirar. […] Embora ele seja esse sujeito academicamente falando, processualmente falando, ele é de uma simplicidade que encanta a gente. Para ele tudo é fácil. A respeito do Carlos como juiz acho que foi dito tudo o que poderia ser dito. Agora como pessoa queria destacar a lealdade do Carlos porque trabalhar com gente leal é de uma importância fundamental na nossa profissão. […] Sempre digo que Deus disse ‘Fabio você vai ter uma benção na vida, vai ser 25 anos revisor do Carlos Bueno.”

O presidente da Seção de Direito Criminal, desembargador Guilherme Gonçalves Strenger, também falou do amigo. “A aposentadoria de um amigo querido como o desembargador Carlos Bueno nos causa tristeza, mas também nos traz ótimas lembranças. O sentimento de todos, tenho certeza, é um só: saudades antecipadas. O Bueno é uma pessoa de espírito afável, extremamente generoso, amigo fiel e de caráter irrepreensível. Com uma simplicidade que lhe é peculiar é querido por todos que o conhecem. É um homem de paz e de bom coração. Sempre cumpriu o seu dever e manteve excepcional relacionamento com todos. […] O Bueno, inegavelmente, tem um dom especial para tratar a alma humana. É um homem ponderado nas suas decisões, como já ressaltado e sempre com o serviço em ordem. Não consigo, às vezes, imaginar como ele dá conta da distribuição em tão curto espaço de tempo, mas a verdade é que ele assim procede e sempre o fez na carreira inteira. […] É um ser humano especial. Embora não tenha tido o privilégio de trabalhar com o Bueno, o que lamento, suas qualidades pessoais sempre foram enaltecidas por todos que o conhecem. […] A sua longa passagem nesta Corte, certamente, deixará a marca de sua personalidade e de seu trabalho. Bueno dignificou a sua toga e além de nos deixar como legado o exemplo do juiz ideal, despede-se de nossa Corte com a certeza do dever cumprido. Certamente sua aposentadoria deixará uma lacuna na nossa Magistratura. O Tribunal realmente perde um magistrado excepcional, um ser humano fantástico que todos nós admiramos. Cabe a nós, nesse momento, agradecer ao Bueno pela amizade, pelo convívio ameno, pela cordialidade de suas ponderações, pela lealdade, bom humor e disposição constantes.

De forma sucinta, o decano do TJSP, desembargador José Carlos Gonçalves Xavier de Aquino, em poucas palavras, resumiu a trajetória do magistrado. “Tenho orgulho de ser seu amigo. Reitero as palavras de todos que me anteciparam. Carlos Bueno é um juiz que sempre soube dar a cada um o que é seu com igualdade.”

Por intermédio do procurador de Justiça Mario Antonio de Campos Tebet, também o Ministério Público se manifestou. “Todos os atributos positivos de caráter ressaltados por todos, a exceção dos dotes culinários naturalmente, são sentidos e percebidos por aqueles que, por alguma razão ou de alguma forma, mantêm interlocução ou tiveram a possibilidade de convivência, ainda que pequena, com Vossa Excelência. […] Quero deixar pública a minha admiração por Vossa Excelência e desejar felicidades para esse momento de aposentadoria. Quero deixar em meu nome e em nome de toda a instituição que represento, em nome de Sua Excelência o procurador-geral de Justiça, um abraço fraterno e um reconhecimento muito grande pelo seu trabalho.”

Ao agradecer os colegas, um desembargador emocionado e contrariado porque não gostaria de se aposentar, foi enfático ao citar Fernando Sabino. “Quando eu era menino, os mais velhos me perguntavam o que você quer ser quando crescer. Hoje não me perguntam mais; se me perguntassem diria: eu quero ser menino.” Foi além: “não quero sair, quero muito ficar…”  Carlos Augusto Lorenzetti Bueno agradeceu ao presidente Pinheiro Franco, com quem tem convivência desde a mais tenra idade, e falou de três grandes orgulhos que tem na vida: sua vida pessoal e profissional, seus amigos e sua trajetória no Poder Judiciário de São Paulo. “O primeiro orgulho é a minha família representada pela minha querida mulher Ana Maria, que está hospitalizada, com problema sério no joelho, e por isso não está aqui do meu lado.” Ele também agradeceu a filha Carolina, o genro Flávio e as netas Manuela e Olívia, sem deixar de citar o saudoso filho André, “que tão cedo nos deixou”. Quando se referiu ao segundo orgulho, fez questão de citar o colega Fábio Monteiro Gouvêa, já que juntos estão na mesma Câmara há mais 25 anos. Dizendo do terceiro orgulho fez um curto relato sobre sua trajetória no Judiciário desde o tempo em que era funcionário. “São mais de 56 anos de Poder Judiciário Bandeirante. Entrei pela porta da frente e pela porta da frente estou saindo”, sem se esquecer de agradecer aos servidores que durante todo esse tempo lhe deram apoio no desempenho de suas atividades. Nominalmente agradeceu a Euler Vinicius, que durante os últimos seis anos o ajudou nos trabalhos afetos ao Órgão Especial.

Trajetória – Carlos Augusto Lorenzetti Bueno nasceu na cidade de São Paulo, em 1947. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito Metropolitanas Unidas, FMU, turma de 1972. Atuou como funcionário do 1º Tribunal de Alçada Civil de 1965 a 1975, antes de ingressar na Magistratura, em 1975, quando foi nomeado juiz substituto da 45ª Circunscrição Judiciária, com sede em Mogi das Cruzes. Atuou nas comarcas de Sorocaba, Buritama, São Vicente, Santo André e na Capital. Em 1992 foi promovido a juiz do Tribunal de Alçada Criminal e, em 2005, nos termos da Emenda Constitucional n° 45/04, tomou posse como desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. É integrante do Órgão Especial desde outubro de 2015 e faz parte da 10ª Câmara de Direito Criminal.

Comunicação Social TJSP – RS (texto) / PS (reprodução e arte)

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